terça-feira, fevereiro 15, 2005

Uma Visão da Arqueologia em Portugal...

De facto ser profissional em Arqueologia em Portugal é uma verdadeira aventura, quase tão dura e dificil quanto aquelas vividas pelos nossos antepassados nas conquistas feitas por esse mundo fora! O fascinio de que se reveste esta ciência é sem dúvida enorme, e penso que quem é realmente um apaixonado pela Arqueologia e teve formação nesta área se tornou uma pessoa muito mais sensivel e começou a ver o mundo de forma diferente.
Ainda durante a frequência do curso pude constatar que os incentivos financeiros para levar a cabo projectos de investigação em Portugal nesta área eram poucos ou nenhuns, a própria frequência de uma liceciatura em Arqueologia assim nos deu indicadores disso mesmo, pois em trabalhos de campo que tivemos que realizar, foi do nosso bolso que saiu o dinheiro para as deslocações e respectivas despesas em alojamento e alimentaçãos a localidades a cerca de 100 ou 200 km da faculdade para obtemos uma classificação. Foram no entanto estas experiências que nos deram o contacto com as nossas raízes culturais, o património e os tão pedagógicos relatos de populações que constituem hoje em dia um valioso testemunho vivo de todo um passado.
As frequentes histórias em torno de empresas de arqueologia que muitos dos meus colegas relatavam, que não tinham verbas para pagar a tempo e horas pelo trabalho, muitas vezes duro, desempenhado; as rivalidades e a falta de ética por muita gente entitulada de arqueologo, que colocam interesses financeiros em primeiro plano, não dando o devido tratamento e respeito ao património, fazem qualquer um meditar sobre
se este era o futuro pelo qual lutaram. Em termos de emprego, ou se trabalha em empresas de arqueologia por periodos que tanto vão de 1 mês a 1 ano, tendo para isso que ter a disponibilidade de andar de terra em terra, em condições salariais e
de trabalho muitas vezes precárias ( chegando-se ao cúmulo de colocar trabalhadores sem formação e habilitações a orientar escavações havendo arqueólogos no local para o efeito) ou então tem que se ter uma cunha e tenta entrar numa câmara municipal. De facto os concursos públicos de admissão de arqueologos para autarquias até têm sido
frequentes, no entanto as pessoas que são admitidas já estão previamente escolhidas. Já tive a oportunidade de concorrer a uma série de concursos e chega a ser patético e irónico o que sucede. A decisão é feita numa entrevista, é aqui que se pode manobrar um concurso, e acontecerem coisas como: entre 4 candidatos em que 2
possuem mestrado e experiência relevante na área, um outro tem cerca de 5 anos de experiência na área de arqueologia em autarquias e outra tanta em trabalhos diversos, e um cadidato que só possui cerca de 2 meses de experiência e uma licenciatura, quem é o escolhido? O que tem cunha, e que por acaso até era o que menos habilitações e experiência tinha! Para quê dispender tempo e dinheiro em formação para depois vermos coisas destas acontecerem?
Além disso as pessoas que colocam no júri das entrevistas têm-se revelado tudo menos profissionais, senão vejam: como é possível que alguém responsável pelo património de uma Câmara Municipal, que por acaso até fica muito próximo de Foz Côa pode numa entrevista profissional alegar que as gravuras do Côa deveriam ter sido "retiradas" e colocadas num Museu e assim ter sido construida a barragem? Eu ao ouvir isto quase caí da cadeira, mas depois até achei piada imaginar o cenário de arqueologos e trabalhadores a "recortar" as gravuras e a colocá-las numa linda vitrine de museu! Será que estes senhores sabem o que é património? Já ouviram falar de musealização de
paisagens?
A continuar assim, as entidades autárquicas não contratam pessoas para preservar o património mas para o destruir. Num país tão pequeno acontecem grandes barbaridades em torno da arqueologia, agora até escolas equestres são mais importantes que o
pouco que já resta do IPA. Onde é que isto vai parar............

Artigo de Rebeca Sousa no Archport, dia 15 Fevereiro 2005

6 comentários:

  1. A tua área (e a minha: História) são áreas cujo o apoio é diminuto e as oportunidades escassas. Ainda assim vale a pena lutar para conseguir um lugar ao sol. Não desistas! (Conselho de quem não desistiu e tem trabalhado sempre em investigação). Bjinhos***

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  2. Mas uma profissão que não seja uma aventura não tem interesse.
    Para isso ia para portajeiro, delegado de propaganda médica ou professor de piano, por exemplo

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  3. Olá Mónica

    Encontrei o teu blog por acaso, e embora não nutra um particular interesse pela arqueologia, não podia deixar de te dar os parabéns pelo teu blog.

    Em dias em que o lixo é o apanágio virtual, é sempre bom saber que alguém ainda faz blogs com utilidade e informação pertinente.

    Bjs

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  4. Passei para o 11ºano na area de humanidades. quando era pequena queria ser veterinaria. até que o meu gosto mudou quando descobri um livro do circulo de leitores sobre o Egipto. a partir dai o meu interesse virou para a historia! e principalmente para a arqueologia. não segui para outra area porque realmente eu pertenço ao mundo da historia e das linguas. foi uma grande luta para ir estudar o que eu gosto. Infelizmente, arqueologia realmente nao e facil no nosso pais e ... acho que infelizmente nao vou seguir esse curso.. neste momento nao sei o que vou ser so no 12º é que me vou decidir. até la compro blocos de argila com mini artefactos pa eu ir "treinando" as minhas capacidades de arqueologa e para me imaginar a tornar aquilo que gostava muito de ser. talvez me dê uma loucura e acabe por seguir...mas ainda nao sei. e concordo com o facto de o nosso país n aproveitar a rica historia que temos (com muita pena minha).

    Muito obrigada e continue com o seu blog

    Ana*

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  5. Ana,

    aconselho-te vivamente a ingressar m campo de arqueologia no verão como voluntária, para tomares o verdadeiro conhecimento contacto com o mundo real

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