quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Convento das Bernardas em Tavira - a história, o património e o seu futuro

Da História

O Mosteiro feminino de São Bernardo, em Tavira, foi mandado construir, em 1509, por D. Manuel I, como "acção de graças" pelo insucesso que teve, no "Algarve de além mar, em África", um cerco mouro, à cidade de Arzila. Posteriormente, o edifício terá sido cedido a D. Fernando Coutinho que, em 1530, o concluiu e o entregou às Monjas de Cister, pelo que, se configura como um mosteiro feminino de época tardia das construções cistercienses em Portugal.

Nos três séculos seguintes, manteve-se como o único convento daquela ordem, na região, tendo as suas religiosas e conversas tido proveniência não só das famílias de Tavira como de todo o Algarve. O edifício sofreu diversas ampliações e alterações ao longo da sua existência. Como muitos outros edifícios da região algarvia foi fortemente danificado com o terramoto de 1755.

Após 1834, e em sequência da legislação liberal que extingue as ordens religiosas, em Portugal, o edifício (Igreja, Convento e Cerca) é incorporado na fazenda real, e vendido em hasta pública. Em 1888, Albrecht Haupt visita Tavira e na sua obra " A Arquitectura da Renascença em Portugal", pág.309, dá-nos o seguinte testemunho sobre o imóvel: " A velha cidade de Tavira é, de todas, aquela que mais importante assunto nos ministra, a saber, o convento das irmãs de S. Bernardo. É instituição de D. Manuel e encontra-se actualmente em estado de ruína total. Era gótica terciária a igreja, ostentando um pórtico manuelino, algo tosco; conserva-se ainda de pé o claustro, de dois pavimentos, com as suas formosas colunas oitavadas, de capitéis com calabres entrançados."

Em 1890, é ali montada a Fábrica de Moagem e Massas a Vapor que, em 1920, é vendida a J. A.Pacheco. A fábrica manter-se-á em laboração, até finais da década de 60. Paralelamente alguns espaços são adaptados a escritórios de apoio ao funcionamento da indústria e a residências particulares. Mantém-se ainda, na actualidade, em funcionamento uma indústria de panificação, na ala a Sul.

Da localização

Este imóvel tem uma localização privilegiada no extremo urbano de Tavira. Situa-se na proximidade da nova ponte sobre o rio Gilão, e apresenta o tardoz bordejado por um canal e voltado para o sapal, para a foz do rio e para a ria, sem obstáculos visuais. Está numa parte da cidade onde coexistem uma parte deprimida, de que faz parte, e uma outra de expansão urbana, com novos edifícios, mas ainda não densamente povoada.

Das alterações à traça original

As alterações de uso do imóvel, particularmente a passagem de convento a moagem, contribuíram não só para marcados desvios ao seu desenho inicial como para a sua actual degradação construtiva e estética. Do primitivo edifício são facilmente identificáveis in situ, para além da localização das alas, exceptuando a central: Um portal gótico-manuelino encimado por fogaréus barrocos, no alçado Norte da igreja.

Algumas mísulas de pedra que serviam de apoio à cobertura do antigo mosteiro, na parte superior da parede sul da Igreja. Os arcos que definiam a capela-mor, o falso transepto e as zona das monjas e outros de acesso. Vãos de janela, com molduras de cantaria de pedra, correspondentes às celas das monjas no alçado interior Poente, piso superior.

Das Intervenções

O edifício foi objecto de intervenções, no interior e no exterior, que afectaram profundamente a identidade da sua imagem enquanto conjunto monástico e os elementos arquitectónicos adquiridos, quando do seu uso como fábrica, não são particularmente dignos de registo. Porém equacionando o seu magnífico enquadramento paisagístico, com os elementos arquitectónicos que subsistem da sua vivência religiosa e conventual, com o elemento marcadamente identificador da sua continuidade enquanto unidade industrial, definem-se assim os três aspectos que, associados, estabelecem o valor patrimonial do edifício . (Natércia Magalhães/ DRFaro/2002)
Texto retirado das fichas online da DGEMN

Do Futuro

O antigo Mosteiro de São Bernardo, também conhecido por Convento das Bernardas, irá transformar-se num condomínio privado de elevada qualidade, com capacidade para 39 apartamentos. Este projecto vai pressupor um investimento de cerca de 1.300 000 de euros.

Segundo a Câmara Municipal de Tavira, o projecto é da responsabilidade do Arquitecto Nuno Manuel Valente Santos Transmontano de Carvalho e consiste na adaptação de um antigo edifício conventual, degradado e adulterado, numa “zona habitacional de qualidade”. (...) De modo a salvaguardar todos os possíveis achados, adianta a autarquia que “dever-se-á proceder a uma prospecção arqueológica preventiva, a qual será considerada como uma parte da obra”, garantindo que a intervenção prevista irá, tanto quanto possível, “manter a traça original do imóvel”. (...) O referido projecto para além de preservar a memória do local, assegura a Câmara Municipal que “irá acrescentar condições de habitabilidade tais, que proporcionará um conjunto homogéneo e de referência à cidade” de Tavira.

Excerto de reportagem retirado do Jornal Região Sul

Mais sobre esta intervenção pode ser vista na pagina dos responsáveis do projecto

Das opiniões acerca desta operação de charme

Curiosamente a blogosfera não tem feito notar as suas considerações; certamente esta intervenção não agradará a gregos e a troianos, mas entre deixar na ruina e intervencionar, o que é mais desejável? Tem de se ter também em consideração o tipo de intervenção e os seus níveis de destruição do património que lhe resta.

Recuso-me a dar opiniões formadas sobre um projecto que desconheço na totalidade, mas não posso deixar de declarar a minha preocupação.

Aceitam-se comentários e opiniões formadas.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

III Encontro Nacional de Estudantes de História

"O Encontro Nacional de Estudantes de História (ENEH) é uma iniciativa que tem a sua génese na vontade dos alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra no ano de 2004. Como este acontecimento pretende ser itinerante, de modo a permitir um conhecimento mais alargado do território português, em 2008 terá lugar na Universidade de Évora.
Desta vez, pelas mãos dos alunos da área departamental de História da Universidade de Évora, o III ENEH pretende expor projectos que têm por base a História e que traçam como meta o futuro, que nem sempre parece promissor, para quem termina a sua licenciatura. Como tal no decorrer do II ENEH foi constituída uma Comissão de alunos que conta com o aval científico do Departamento de História da Universidade de Évora e do seu Presidente, Professor Doutor José Alberto Gomes Machado.
O objectivo deste III ENEH é congregar alunos, não só de licenciatura, mas de outros níveis do ensino superior, que se dediquem ao estudo das múltiplas vertentes da História, nomeadamente: arqueologia, conservação e restauro, investigação, história da arte ou património cultural.
Deste modo o III ENEH irá contar com profissionais da História que tenham traçado novos rumos, quer seja criando as suas próprias empresas, quer durante o seu trabalho no sector público tenham apostado em projectos inovadores com objectivos de valorização. No fundo são projectos inovadores e que conseguem aliar vertentes como o turismo, as novas tecnologias ou o empreendedorismo.
Para além do carácter científico que queremos dar a este III ENEH, não poderíamos esquecer o seu cariz cultural, por isso pretendemos dar a conhecer a cidade realizando uma visita guiada que irá incluir os elementos pré-históricos mais significativos do concelho, assim como dar a conhecer a vida cultural eborense."

Para Mais informações pode consultar a Pagina Oficial.

As Inscrições podem realizar-se online

Para consultar o programa aceda o seguinte ficheiro

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Crónica - As Lembranças de Damão

Não é dificil para mim falar de Damão a todos aqueles que me abordam sobre a minha “aventura” e também não é segredo que a Índia ficou eternamente no meu coração. Sinto saudades do cheiro da Índia, dos amendoins quentes e do “lassi”, do sumo de cana e das gentes com os seus sorrisos, do encantamento e da descoberta. Embarquei para a Índia completamente embriagada com os deveres académicos de um projecto e deixei-me, a pouco e pouco, levar pelas coisas boas que a Índia me dava. A visão ocidental e completamente redutora que tinha foi-se esvaindo com as surpresas constantes do quotidiano e no fim de mais um dia passado tinha mais saudades de um tempo livre que não tinha contemplado nos dias de projecto de investigação.
Como que por ironia, tem-me acontecido algo que tem tanto de estranho como de agradável: passo frequentemente, e sem sequer planear, por ruas de Lisboa que me remetem a essas lembranças – Rua Cidade de Goa em Sacavém, Rua Diu no Prior Velho, Praça Damão em Lisboa... Naturalmente que o meu olhar está agora «apontado» e apurado a todos os assuntos que da Índia se tratem, mas mesmo assim, não deixo de ficar agradávelmente surpreendida com estas recorrências.
De todas as lembranças, aquela que mais saudades me traz é sem dúvida o meu quarto em casa da Mazé, com todos os melhores e menos bons momentos. A primeira noite: grande atribulação; passei de ser humano a pista de aterragem para melgas e melgões (devo dizer que a minha pele sempre foi cobiçada por todos os mosquitos que se prezem, desde a Europa às Américas, e a Ásia não haveria de ser excepção). A segunda noite resolvi isso com repelente nos braços e face (espalhada gentilmente como se de um creme se tratasse sem chegar às zonas sensíveis). Não resultou a 100%...passei a ter um heliporto nas pálpebras e nas orelhas. A terceira noite desenrasquei uma tenda à base de um lençol entalado entre a cabeceira da cama e as laterais do colchão, sempre com a dificuldade que era a de entrar, entalar e manter a dita tenda no sitio certo. Este esquema durou até finalmente comprar a bela e famosa rede de mosquitos amarela-champanhe (recusei o verde flurescente e o rosa choque por achar que podia assustar-me se acordasse a meio da noite). Outra noite maravilhosa tem a ver com bichos de quatro patas e não com outros voadores. Não cheguei a saber o que seria ao certo, mas pelo barulho que infligia no soalho e nos sacos (e nos ginchinhos) era algo entre um blind mice e uma osga que, com a sua curiosidade, gazilhou nos meus sacos plásticos e fez um barulho tal que me deixou o resto da noite de atalaia. A peripécia durou mais uma noite até eu decidir na terceira noite que o melhor era esconder os sacos barulhentos para que o bicho pudesse passear no soalho de madeira sem me acordar do meu sono reparador.
Com o passar dos dias, os sons da rua foram tornando-se familiares; já dava por falta do senhor que passava todas as manhãs a apregoar garam garam (algo quente e fresco) tal como se dá por falta de um amolador nas tradicionais ruas de Lisboa. Até da gata ladra que entrava sorrateiramente na cozinha para roubar o que conseguia e que o seu filhote aprendeu a fazer habilmente de uma forma ainda mais arrojada...metia-se nos quartos à procura de algo interessante e só davamos por ele se por acaso nos cruzassemos quando ele saisse das suas investigações.
Ontem via a Índia como um país distante, enigmático e fascinante mas problemático e cheio de perigos; hoje vejo a Índia como uma aventura infindável, um manancial de emoções a serem descobertas. Os perigos, os problemas e as dificuldades continuam lá mas hoje em dia, qualquer país está exposto a este tipo de situações. É apenas a consciência, a retidão, a diplomacia e o respeito pelos outros que irão fazer da Índia, tal como qualquer outro país, um país melhor para um cidadão do mundo. Respeito pelo próximo, humildade, reconhecimento das diferenças culturais são chaves básicas para tirar o melhor partido de qualquer que seja a experiência cultural que se esteja a viver. Não há espaço para vergonhas, não existe espaço para dizer não a uma experiência diferente, não se permitem desculpas à base da falta de tempo para viver algo novo. O risco que se corre ao agir desta forma é elevado e irreversívelmente positivo: fica-se totalmente apaixonado com estas emoções únicas a que nos permitimos viver! Se a Índia me deixou alguma coisa, deixou certamente a saudade marcada no coração; se a Índia me ensinou alguma coisa, ensinou certamente a dar valor aos pequenos momentos.

Crónica publicada na edição de janeiro de 2008 da Associação Fraternidade Damão Diu e Simpatizantes