O Mosteiro feminino de São Bernardo, em Tavira, foi mandado construir, em 1509, por D. Manuel I, como "acção de graças" pelo insucesso que teve, no "Algarve de além mar, em África", um cerco mouro, à cidade de Arzila. Posteriormente, o edifício terá sido cedido a D. Fernando Coutinho que, em 1530, o concluiu e o entregou às Monjas de Cister, pelo que, se configura como um mosteiro feminino de época tardia das construções cistercienses em Portugal. Nos três séculos seguintes, manteve-se como o único convento daquela ordem, na região, tendo as suas religiosas e conversas tido proveniência não só das famílias de Tavira como de todo o Algarve. O edifício sofreu diversas ampliações e alterações ao longo da sua existência. Como muitos outros edifícios da região algarvia foi fortemente danificado com o terramoto de 1755.
Após 1834, e em sequência da legislação liberal que extingue as ordens religiosas, em Portugal, o edifício (Igreja, Convento e Cerca) é incorporado na fazenda real, e vendido em hasta pública. Em 1888, Albrecht Haupt visita Tavira e na sua obra " A Arquitectura da Renascença em Portugal", pág.309, dá-nos o seguinte testemunho sobre o imóvel: " A velha cidade de Tavira é, de todas, aquela que mais importante assunto nos ministra, a saber, o convento das irmãs de S. Bernardo. É instituição de D. Manuel e encontra-se actualmente em estado de ruína total. Era gótica terciária a igreja, ostentando um pórtico manuelino, algo tosco; conserva-se ainda de pé o claustro, de dois pavimentos, com as suas formosas colunas oitavadas, de capitéis com calabres entrançados."
Em 1890, é ali montada a Fábrica de Moagem e Massas a Vapor que, em 1920, é vendida a J. A.Pacheco. A fábrica manter-se-á em laboração, até finais da década de 60. Paralelamente alguns espaços são adaptados a escritórios de apoio ao funcionamento da indústria e a residências particulares. Mantém-se ainda, na actualidade, em funcionamento uma indústria de panificação, na ala a Sul.
Da localização
Este imóvel tem uma localização privilegiada no extremo urbano de Tavira. Situa-se na proximidade da nova ponte sobre o rio Gilão, e apresenta o tardoz bordejado por um canal e voltado para o sapal, para a foz do rio e para a ria, sem obstáculos visuais. Está numa parte da cidade onde coexistem uma parte deprimida, de que faz parte, e uma outra de expansão urbana, com novos edifícios, mas ainda não densamente povoada.
Das alterações à traça original
As alterações de uso do imóvel, particularmente a passagem de convento a moagem, contribuíram não só para marcados desvios ao seu desenho inicial como para a sua actual degradação construtiva e estética. Do primitivo edifício são facilmente identificáveis in situ, para além da localização das alas, exceptuando a central: Um portal gótico-manuelino encimado por fogaréus barrocos, no alçado Norte da igreja.
Algumas mísulas de pedra que serviam de apoio à cobertura do antigo mosteiro, na parte superior da parede sul da Igreja. Os arcos que definiam a capela-mor, o falso transepto e as zona das monjas e outros de acesso. Vãos de janela, com molduras de cantaria de pedra, correspondentes às celas das monjas no alçado interior Poente, piso superior.
Das Intervenções
O edifício foi objecto de intervenções, no interior e no exterior, que afectaram profundamente a identidade da sua imagem enquanto conjunto monástico e os elementos arquitectónicos adquiridos, quando do seu uso como fábrica, não são particularmente dignos de registo. Porém equacionando o seu magnífico enquadramento paisagístico, com os elementos arquitectónicos que subsistem da sua vivência religiosa e conventual, com o elemento marcadamente identificador da sua continuidade enquanto unidade industrial, definem-se assim os três aspectos que, associados, estabelecem o valor patrimonial do edifício . (Natércia Magalhães/ DRFaro/2002)
Texto retirado das fichas online da DGEMN
Do Futuro
O antigo Mosteiro de São Bernardo, também conhecido por Convento das Bernardas, irá transformar-se num condomínio privado de elevada qualidade, com capacidade para 39 apartamentos. Este projecto vai pressupor um investimento de cerca de 1.300 000 de euros.Segundo a Câmara Municipal de Tavira, o projecto é da responsabilidade do Arquitecto Nuno Manuel Valente Santos Transmontano de Carvalho e consiste na adaptação de um antigo edifício conventual, degradado e adulterado, numa “zona habitacional de qualidade”. (...) De modo a salvaguardar todos os possíveis achados, adianta a autarquia que “dever-se-á proceder a uma prospecção arqueológica preventiva, a qual será considerada como uma parte da obra”, garantindo que a intervenção prevista irá, tanto quanto possível, “manter a traça original do imóvel”. (...) O referido projecto para além de preservar a memória do local, assegura a Câmara Municipal que “irá acrescentar condições de habitabilidade tais, que proporcionará um conjunto homogéneo e de referência à cidade” de Tavira.
Excerto de reportagem retirado do Jornal Região Sul
Mais sobre esta intervenção pode ser vista na pagina dos responsáveis do projecto
Das opiniões acerca desta operação de charme
Curiosamente a blogosfera não tem feito notar as suas considerações; certamente esta intervenção não agradará a gregos e a troianos, mas entre deixar na ruina e intervencionar, o que é mais desejável? Tem de se ter também em consideração o tipo de intervenção e os seus níveis de destruição do património que lhe resta.
Recuso-me a dar opiniões formadas sobre um projecto que desconheço na totalidade, mas não posso deixar de declarar a minha preocupação.
Aceitam-se comentários e opiniões formadas.




