sexta-feira, janeiro 11, 2008

Crónica - As Lembranças de Damão

Não é dificil para mim falar de Damão a todos aqueles que me abordam sobre a minha “aventura” e também não é segredo que a Índia ficou eternamente no meu coração. Sinto saudades do cheiro da Índia, dos amendoins quentes e do “lassi”, do sumo de cana e das gentes com os seus sorrisos, do encantamento e da descoberta. Embarquei para a Índia completamente embriagada com os deveres académicos de um projecto e deixei-me, a pouco e pouco, levar pelas coisas boas que a Índia me dava. A visão ocidental e completamente redutora que tinha foi-se esvaindo com as surpresas constantes do quotidiano e no fim de mais um dia passado tinha mais saudades de um tempo livre que não tinha contemplado nos dias de projecto de investigação.
Como que por ironia, tem-me acontecido algo que tem tanto de estranho como de agradável: passo frequentemente, e sem sequer planear, por ruas de Lisboa que me remetem a essas lembranças – Rua Cidade de Goa em Sacavém, Rua Diu no Prior Velho, Praça Damão em Lisboa... Naturalmente que o meu olhar está agora «apontado» e apurado a todos os assuntos que da Índia se tratem, mas mesmo assim, não deixo de ficar agradávelmente surpreendida com estas recorrências.
De todas as lembranças, aquela que mais saudades me traz é sem dúvida o meu quarto em casa da Mazé, com todos os melhores e menos bons momentos. A primeira noite: grande atribulação; passei de ser humano a pista de aterragem para melgas e melgões (devo dizer que a minha pele sempre foi cobiçada por todos os mosquitos que se prezem, desde a Europa às Américas, e a Ásia não haveria de ser excepção). A segunda noite resolvi isso com repelente nos braços e face (espalhada gentilmente como se de um creme se tratasse sem chegar às zonas sensíveis). Não resultou a 100%...passei a ter um heliporto nas pálpebras e nas orelhas. A terceira noite desenrasquei uma tenda à base de um lençol entalado entre a cabeceira da cama e as laterais do colchão, sempre com a dificuldade que era a de entrar, entalar e manter a dita tenda no sitio certo. Este esquema durou até finalmente comprar a bela e famosa rede de mosquitos amarela-champanhe (recusei o verde flurescente e o rosa choque por achar que podia assustar-me se acordasse a meio da noite). Outra noite maravilhosa tem a ver com bichos de quatro patas e não com outros voadores. Não cheguei a saber o que seria ao certo, mas pelo barulho que infligia no soalho e nos sacos (e nos ginchinhos) era algo entre um blind mice e uma osga que, com a sua curiosidade, gazilhou nos meus sacos plásticos e fez um barulho tal que me deixou o resto da noite de atalaia. A peripécia durou mais uma noite até eu decidir na terceira noite que o melhor era esconder os sacos barulhentos para que o bicho pudesse passear no soalho de madeira sem me acordar do meu sono reparador.
Com o passar dos dias, os sons da rua foram tornando-se familiares; já dava por falta do senhor que passava todas as manhãs a apregoar garam garam (algo quente e fresco) tal como se dá por falta de um amolador nas tradicionais ruas de Lisboa. Até da gata ladra que entrava sorrateiramente na cozinha para roubar o que conseguia e que o seu filhote aprendeu a fazer habilmente de uma forma ainda mais arrojada...metia-se nos quartos à procura de algo interessante e só davamos por ele se por acaso nos cruzassemos quando ele saisse das suas investigações.
Ontem via a Índia como um país distante, enigmático e fascinante mas problemático e cheio de perigos; hoje vejo a Índia como uma aventura infindável, um manancial de emoções a serem descobertas. Os perigos, os problemas e as dificuldades continuam lá mas hoje em dia, qualquer país está exposto a este tipo de situações. É apenas a consciência, a retidão, a diplomacia e o respeito pelos outros que irão fazer da Índia, tal como qualquer outro país, um país melhor para um cidadão do mundo. Respeito pelo próximo, humildade, reconhecimento das diferenças culturais são chaves básicas para tirar o melhor partido de qualquer que seja a experiência cultural que se esteja a viver. Não há espaço para vergonhas, não existe espaço para dizer não a uma experiência diferente, não se permitem desculpas à base da falta de tempo para viver algo novo. O risco que se corre ao agir desta forma é elevado e irreversívelmente positivo: fica-se totalmente apaixonado com estas emoções únicas a que nos permitimos viver! Se a Índia me deixou alguma coisa, deixou certamente a saudade marcada no coração; se a Índia me ensinou alguma coisa, ensinou certamente a dar valor aos pequenos momentos.

Crónica publicada na edição de janeiro de 2008 da Associação Fraternidade Damão Diu e Simpatizantes

domingo, dezembro 02, 2007

"A Ideia de Pintar de João Viegas"

"Ir de encontro à arte de João Viegas é embarcar numa viagem com bilhete de ida…sem volta. É impossível não se sentir tocado por um ou outro aspecto que o pincel guiado pelas suas mãos acaba por despejar na tela. Não se explica de onde vem a emoção que se apodera das veias nem sequer é necessário explicar, basta deixar-se guiar até ao ponto de a tela já ter sido galgada e pertencer agora ao íntimo do observador (...)"

"To go on the encounter of the art of João Viegas is to embark into a trip with gone ticket and... With no return. It is impossible not to feel itself touched by one or another aspect that the brush guided from he’s hands puts into the canvas. It’s not explainable from where it comes the emotion that if takes possession of the veins and it’s not even necessary to explain, it’s enough to leave yourself to be guided until the point that the canvas has already been jumped and belongs now to the very soul of the observer (...)"

O artigo completo pode ser visualizado na próxima edição do semanário Postal do Algarve, quinta-feira dia 6 Dezembro.

Mais obras do autor podem ser visualizadas nos seu blog

terça-feira, outubro 09, 2007

Myanmar ou Birmania - a dor do povo é igual

A chamada Revolta cor de acafrão, assim baptizada devido à cor das vestes dos monges, está a mutar-se subitamente para uma totalidade cor de sangue. Como é que se pode matar, oprimir, deter, privar da suas actividades, pessoas que se manifestam pacificamente com um único objectivo: "todos os seres vivam livres de ódio e do perigo"

Porque ninguém deve ficar indiferente, tomemos uma atitude activa perante uma situação de extrema vileza. Este condenável acto que vai contra os direitos humanos, os mais basicos, deve ser exposta perante todos. O que podemos nós fazer enquanto cidadãos? Pelo menos tornar válido o nosso descontentamento através do Online Petition e do avaaz. É um acto mínimo mas ao alcance de todos. O peso que este processo tem perante a sociedade pode ser quase nulo, mas não facilitemos e usemos tudo o que estiver ao nosso alcance.

As datas de um país num relance:

1057 - O Rei Anawrahta funda o primeiro estado birmanês unificado em Pagan e adopta o budismo como religião.
1885-86 - Os britânicos ocupam Mandalay e a Birmânia passa a ser uma província da Índia britânica.
1937 - O Reino Unido separa a Birmânia da Índia e torna-a numa das jóias da coroa.
1942 - O Japão invade e ocupa a Birmânia coma a ajuda do Exercito Independente Birmanês, que mais tarde se transforma na Liga Antifascista para a Libertação do Povo (LALP).
1945 - O Reino Unido liberta a Birmânia do jugo japonês com a ajuda do LAFLP liderada por Aung San, pai da futura contestatária Aung San Suu Kyi.
1948 - A Birmânia torna-se independente com Thakin Nu como primeiro-ministro.
Anos 50 - Thakin Nu juntamente com o primeiro-ministro indiano Nehru, o presidente indonésio Sukarno, o presidente jugoslavo Tito e o presidente egípcio Nasser fundam o Movimento dos Não Alinhados.
1962 - O partido de Thakin Nu é afastado do poder por um golpe militar levado a cabo pelo general Ne Win, que abole o sistema federal e instala a "via birmanesa para o socialismo" - nacionaliza a economia, forma um estado de partido único e proíbe os jornais independentes.
1974 - A nova constituição entra em vigor e transfere o poder das forças armada para uma junta do povo constituída pelo general Ne Win e outros líderes militares.
1975 - A Frente Democrática de Oposição Nacional (FDON) é criada na ilegalidade e passa a realizar operações de guerrilha.
1987 - A desvalorização monetária lança milhares de pessoas para a pobreza e impulsiona protestos contra o governo.
1988 - Milhares de pessoas são mortas nas manifestações anti-governamentais. É criado o Conselho da Restauração da Ordem e Lei do Estado (CROLE).
1989 - O CROLE prende milhares de pessoas, incluindo advogados e activistas de organizações dos direitos humanos e muda o nome do país de Birmânia para Myanmar. A líder da Liga Nacional para a Democracia (LND), Aung San Suu Kyi, é detida pela primeira vez.
1990 - A LND vence as eleições legislativas de forma categórica, mas os resultados são ignorados pela junta militar.
1991 - Aung San Suu Kyi recebe o prémio Nobel da Paz, pelos seus esforços para uma mudança pacífica na Birmânia. Como está detida em casa não pôde ir a Oslo receber a distinção.
1997 - A Birmânia é admitida com membro da Associação de Nações do Sudoeste Asiático (ASEN). O CROLE muda o nome para Conselho para o Desenvolvimento e Paz do Estado (CDPE).
2001 (Setembro) - Khin Nyunt, director dos serviços secretos birmaneses, em visita à Tailândia, promete o envolvimento da Birmânia para acabar com o comércio de drogas no triângulo dourado.
2001 (Novembro) - O presidente chinês, Jiang Zemin, visita a Birmânia em sinal de apoio ao governo e incentiva novas reformas económicas.
2003 - Khin Nyunt torna-se primeiro-ministro e propõe a realização de uma convenção onde seria delineada uma nova constituição, que faria parte de um "mapa" em direcção à democracia.
2004 (Maio) - Começa a convenção constitucional, independentemente do boicote da LND, cuja líder Aung San Suu Kyi continua em prisão domiciliária. A convenção é suspensa em Julho.
2004 (Novembro) - Alguns dissidentes são libertados, entre eles Min Ko Naing, um dos mais importantes líderes dos motins de 1988.
2005 - Recomeça a convenção constitucional, mas sem a participação da maioria da oposição e de alguns grupos étnicos. As conversações terminam em Janeiro de 2006 sem quaisquer alterações.
2007 (Janeiro) - A China e a Rússia vetam uma resolução dos EUA proposta no Conselho de Segurança da ONU. O documento visava impedir as perseguições feitas aos opositores políticos na Birmânia, bem como às minorias étnicas.
2007 (Abril) - A Birmânia e a Coreia do Norte reatam relações diplomáticas, após um interregno de 24 anos.
2007 (Maio) - A prisão domiciliária de Aung San Suu Kyi é prolongada por mais um ano.
2007 (Junho) - Indo contra a sua habitual posição neutral, o Comité Internacional da Cruz Vermelha (COICV), acusou o governo birmanês de não respeitar os direitos do povo.
2007 (Agosto) - Na sequência da subida maciça do preço dos combustíveis e dos transportes uma onda de protestos começa a varrer o país. Dezenas de activistas são presos.
2007 (Setembro) - Monges budistas lideram uma série de protestos anti-governamentais a que se juntam milhares de civis. A junta militar ordena que a policia carregue sobre a multidão, que detém centenas de protestantes. Pelo menos duas dezenas de pessoas são mortas, entre elas, Kenji Nagai, um fotojornalista japonês.


E agora? Vai ficar aí indiferente?